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Nas sociedades modernas,
nas formas de organização dos artistas chegam sempre tarde.
Nos tempos em que artistas e artesãos eram a mesma coisa, elas
se definiram e se impuseram. Com o desenvolvimento do mercado, entretanto,
o artesão assumiu definido papel social, na divisão do
trabalho, enquanto o artista demorava em se apresentar como exercendo
atividade digna de apreço e de remuneração. Os
artesãos, como, depois, os operários, trabalhavam juntos,
coletivamente; os artistas, à medida que o tempo avançava,
mais se distanciavam, uns dos outros, e o trabalho que fazia apresentava
o caráter de atividade solitária. Até que, em nossos
tempos ficou absolutamente, claro que os trabalhadores, particularmente
os assalariados, só valiam, enquanto massa, por que individualmente
nada valiam. Mas aos artistas, ao contrário, e justamente, por
que trabalhavam separados uns dos outros, só valiam enquanto
indivíduos. Nestas origens difíceis, é que reside
a refractariedade dos artistas em se organizarem para a defesa de seus
direitos. E isto ainda prossegue existindo, apesar de que o produto
do trabalho artístico assume, sempre e cada vez mais, características
de mercadoria.
A literatura foi a última as artes a ocupar espaço na sociedade e a última a ver o produto de seu trabalho assumir a característica de mercadoria. Ela permaneceu, por longo tempo, como destinada apenas ao lazer, como prenda e ornamento, peculiar ao sócio e conseqüentemente, secundária e ancilar. Daí a dificuldade dos que a praticavam, os escritores, em se organizar. Organizar-se compreendia, naturalmente, trabalhar em comum, vencer as resistências peculiares ao individualismo. Observe-se que a forma mais antiga de organização que os escritores, conheceram e adotaram foi, a acadêmica. E que essa forma revestida de destaque e distinção, valorizava individualmente e omitia tudo aquilo que era traço comum à atividade. As academias, enquanto sociedades de letrados diferentemente do que acontecera na Grécia, com o mesmo nome jamais cuidaram de problemas de ordem material e de tudo, o que, essencialmente diferenciava os seus membros dos homens comuns e, particularmente, dos que faziam trabalho diferente, inclusive dos artesãos, que passaram a uma espécie de segunda, classe, porque a atividade deles era uma forma de trabalho, enquanto a atividade artística deveria sempre, para distinguir-se, parecer algo contrastante com o trabalho diferente do deles. Como a forma acadêmica cedo provou as suas insuficiências, enquanto preservadora dos interesses dos escritores, toda voltada para a glória, o destaque e a individualização, apareceram formas substitutivas de organização, clubes, uniões, sociedades, associações, etc. todas, entretanto, guardando um pouco os resíduos antigos, isto é, pretendendo valorizar o escritor e não as suas obras. Só recentemente os escritores começaram a compreender que a forma específica de preservação desses interesses é o sindicato. No sindicato, realmente, o escritor vale enquanto tal, apenas. Essa forma de organização destina-se especificamente e essencialmente, a proteger o trabalho do escritor, a preservá-lo, a fazer dele meio de vida, instrumento de sobrevivência. A forma acadêmica, recrutando os, seus elementos sob o critério de valor artístico, distinguindo alguns da massa, separando-os, tinha um fermento natural de dissociação que a impedia de funcionar como preservadora do trabalho literário, independente da autoria. A forma acadêmica distinguia os tidos como melhores; a forma sindical distingue a todos. A forma acadêmica surgiu nas sociedades de classe em que o trabalho artístico, diferente do trabalho do artesão, proporcionava glória, privilégio e prestígio a cada um individualmente. Era a época em que a criação artística era um traço de classe, como a instrução. O desenvolvimento das sociedades complexas e diversificadas, com o desdobramento da divisão do trabalho, colocou no mesmo plano todos os que exerciam a mesma atividade artística. Tratava-se, desde então, de lhes assegurar condições de vida e de trabalho e não de lhes proporcionar glórias; privilégios e prestígio. Daí a importância de que se reveste o sindicato de escritores. E não vai tardar o tempo em que essa verdade elementar será plenamente aceita não só pela sociedade como pelos próprios escritores. Nelson Werneck Sodré |