Mas, falemos do mundo dos anos 80. Subsiste
uma percepção geral de que vivemos profunda crise cultural,
no sentido sócio-antropológico, que não é
apenas a de um setor da vida social, mas reflexo de um quadro geral
da economia e da sociedade, em decorrência do "modelo"
único de anti-desenvolvimento imposto pelo FMI-BIRD.
A especificidade da crise atual não está na incapacidade
de se restabelecer situações anteriores, conforme a
sociologia define o estado de crise, mas na estagnação,
na anulação e, sobretudo, na ausência de perspectivas
tanto teóricas como práticas.
A progressiva oligopolização mundial da economia e da
informação, por exemplo, impôs um modelo único
recessivo, a anticultura na dimensão planetária, que
consagra o primitivismo, o egotismo, o etnocentrismo das potências
hegemônicas, a onipotência do lucro, o primado do capital
e da tecnologia sobre o trabalho e a verdadeira liberdade humana,
a despeito da indigência conceptual da sua mensagem.
A crise geral do sistema, que a metáfora globalizante aprofunda,
não só denuncia a fragilidade extrema de nações
como o Brasil, a inutilidade dos discursos políticos em voga,
como permite a tomada de consciência na precariedade do destino
de milhões de seres humanos da América Latina, África
e Oriente Médio.
A impostura do modelo soi disant "universal", que propõe
uma interpretação única dos fatos econômicos
e políticos, da escala de valores filosóficos, éticos
e culturais, nega cinicamente a realidade humana sócio-econômica
c cultural. Este modelo cultural dominante com que o neo-imperialismo
pretende sobreviver corresponde, como no antigo Pacto Colonial, à
formação de grandes espaços econômicos
cativos, ricos em matérias-primas e em mão-de-obra barata
nos mercados desregulados. Mencione-se como exemplo a imposição
da zona de Livre Comércio hemisférica, objetivo dos
EUA para a América Central e do Sul, até a primeira
década do próximo século.
já se escreveu que a cultura é o que resta quando tudo
o mais foi esquecido. Nesta altura das nossas considerações
é possível pensar-se que, para os povos em desenvolvimento,
não restará nem este consolo elementar.
Creio que precisamos urgentemente recuperar para o debate atual a
questão do imperialismo com sua nova máscara. Para nossos
fins, a "globalização" anula não só
as identidades como o próprio sentido humanístico e
solidário da vida social. Mas, qual é a realidade da
perversa metáfora imperfeita da "globalização"?
A "mundialização" da crise geral do capitalismo
financeiro erigido em Bretton Woods não se traduz apenas em
exclusão, desemprego, miséria, criminalidade, degradação,
mas vai mais fundo transformando as regiões periféricas
em zonas internacionais de predação neocolonial, num
formidável processo de regressão histórica.
Um documento datado de 1982 do Ministério Francês de
Cooperação e do Desenvolvimento denunciava este "modelo
único": Sair uns da crise não poderá ser
feito à custa da pobreza dos outros, isto é, o deslocamento
dos equipamentos industriais e de capitais supérfluos do centro
para os espaços onde a mão-de-obra é barata...
A única via possível é aquela da restauração
das economias subdesenvolvidas e dominadas, redefinindo-se as regras
do comércio internacional e garantindo a possibilidade do seu
desenvolvimento específico". Enfim, uma nova ordem mundial
rigorosamente oposta ao neocolonialismo "globalizante".
Dentro desta realidade coloca-se a questão nacional em cujo
cerne está a identidade e, no caso brasileiro, uma identidade
sem dúvida fragmentária e cindida pelo "apartheid"
social, mas que mesmo em suas contradições dilacerantes
é produto do nosso processo histórico e expressão
da nossa "Weltanschauung". Portanto, neste momento, creio,
só nos cabe apelar para a recuperação da tradição
militante da inteligência brasileira, postular pelo saber atuante,
na luta pela dignidade nacional, por uma ordem social justa e pelos
direitos essenciais da pessoa humana e repudiarmos a "cultura"
fabricada nas usinas transnacionais, que desintegram as sociedades
dependentes.
Toledo Machado
Presidente Sindicato dos Escritores de SP.