A metáfora
da globalização
Ao saudar com renovada esperança a recriação
do Fórum Nacional de Escritores, entidade coordenadora dos
sindicatos, associações profissionais e demais entidades
representativas da categoria profissional do escritor, remeti a alguns
momentos históricos das lutas dos intelectuais brasileiros,
desde o pós-guerra.
Estávamos munidos naquele Fórum do Rio de Janeiro brasileiros
de todos os quadrantes, numa jornada de afirmação, de
construção e a um só tempo de resistência
ao processo instalado de desidentificação e de desterritorialização
da cultura nacional, resultante da perda da autonomia sócio-econômica
e política do País. Lembrei que em outro instante crucial
da história da cultura brasileira, da sua história política,
reuniram-se no primeiro congresso de Escritores do pós-guerra,
realizado em São Paulo, de 22 a 27 de fevereiro de 1945, intelectuais
de todo o País na campanha pela redemocratização.
A temática central do Congresso não se Iimitava, porém,
ao problema político da redemocratização, do
resgate do direito ao voto, que corrompido e desfigurado foi um dos
argumentos mais fortes da Revolução de 30. Ressurgia,
implícita, a questão nacional nos países de extração
colonial, ainda dependentes do sistema central euro-americano, que
buscavam a afirmação política, o desenvolvimento
autocentrado e o direito à preservação das identidades
culturais. Para milhões, atiçava-se a chama da esperança
em dias melhores, no "mundo novo", que prometia nascer dos
escombros da guerra.
Porém não tardou despedaçarem-se as esperanças
e ilusões. já em 1948, desencadeava-se a "guerra
fria" com o discurso de Churchil nos Estados Unidos, o alinhamento
automático à doutrina do confronto e do armamentismo
que só velo adquirir nova feição estratégica
com a derrocada do império soviético. Agora, a "guerra
fria" voltas-e contra os países dependentes da periferia
das economias centrais, ameaçados de desaparecerem como nação.
Pranteemos os anos perdidos, o ocaso das ilusões, porém
sem esmorecimentos. A intelectualidade brasileira realizou ao longo
destes anos novos atos coletivos reafirmando a Carta de Princípios
de São Paulo, que vinculava o problema da defesa e consolidação
da democracia à execução de uma política
independente de progresso econômico e bem-estar social, que
possibilitasse o desenvolvimento da cultura. Estão registrados
os congressos de escritores de 1947, em Belo Horizonte, cindido pelas
coordenadas da "guerra fria"; em Salvador em 1952; em Goiânia
em 1954; em Santa Catarina em 1981; em São Paulo, em 1985.
Quanto aos primeiros congressos de escritores, escreveu Astrogildo
Pereira, que "eles desempenharam importante papel na luta comum
de todo o nosso povo pela redemocratização do País
e serviram à tradição militante da inteligência
brasileira, que o Mundo nos legara desde a Inconfidência, a
Independência, a Regência, a Abolição, a
República".
Em nenhuma ocasião, estes encontros da intelectualidade deixaram
de destacar a luta pela cultura nacional, por uma ordem social justa
e pelos direitos essenciais da pessoa humana.
Decorrido meio século de lutas e esperanças, constatamos
pesarosos que o esforço de algumas gerações não
correspondeu à expectativa de uma ordem mundial liberta das
desigualdades fundamentais entre povos, nações e entre
indivíduos.
Os países do terceiro mundo permaneceram dentro do sistema
de "Interdependência vertical, o que impediu alcançassem
de fato a condição de nações com vontade
política própria. Por conseguinte, as culturas como
as identidades coletivas permaneceram "engessadas" e hoje
mais do que nunca encontram-se ameaçadas de desaparecimento
diante do megaprojeto da globalização, que é
a contra-revolução conservadora em escala mundial, a
mais radical que se conhece, pois trata de condenar cerca de 4 bilhões
de pessoas em todo o mundo A idéia do progresso contínuo
e linear corrente no final do século XIX suscitou tantas esperanças
como se concretizou num pesadelo para a maioria das nações
da periferia. Continuamos na condição neocolonial, da
linha de sombra da civilização industrial e pós-industrial.