Escritores: Trajetória
dos Sindicatos (I)
A idéia da organização
dos escritores em Sindicatos, se querem saber, foi concebida pela
Eneida, antes de 64, mas só parida em plena vigência
do monstrengo ditatorial que se chamou AI-5. Quem foi Eneida? É
a natural pergunta que estou ouvindo dos representantes da novíssima
geração. Eneida é aquela escritora de voz rouquenha
que passeia pelas páginas de Memórias do Cárcere,
de Graciliano Ramos. Foi, durante cerca de três décadas,
uma agitadora cultural de insuperável coragem, jamais deixando
de exercitar o direito de cidadania. Organizava, nos anos 40 e 50,
caravanas de escritores para discutir literatura nas mais diferentes
regiões do País.
Pouco antes do golpe militar de 64, logo após a renúncia
de Jânio Quadros, naquele rápido percurso das turbulências
que colocavam João Goulart, o Jango, com o apoio apenas da
CUT, da época, que tinha como seus Vicenços, os Dantes
Pelicanis, Eneida esteve no 1º Encontro Nacional de Escritores
de Brasília. A escritora mostrava-se preocupada com a sorte
dos trabalhadores e com a anunciada reforma agrária, que estava
sendo conduzida por uma frente sindical "minada de interesses
suspeitos" do chamado "peleguismo". Com a sua idéia
de Sindicatos já em estado de gestação no eixo
Rio-São Paulo, a Eneida, em Brasília, numa roda em que
se encontravam Samuel Rawet, Pedro Luiz Masi, Walmir Ayala, Homero
Homem e este escriba, foi logo detonando: "Precisamos denunciar
o maucaratismo e o oportunismo de um escritor/advogado não
sei de quê, que pretendeu ser designado adido cultural do Brasil
em Portugal, já garantiu ao Jango que os nossos Sindicatos
vão ser criados logo".
Foi exatamente esse temor do peleguismo cultural o principal motivo
de ter sido adiada (e ter acontecido no período do ditatorial)
a organização dos escritores em Sindicatos. Recordo
que quem terminou sendo parteiro da idéia de Eneida foi o José
Louzeiro. Era um tempo em que só as vozes dos Quartéis
ganhavam asas e eram livres. Enquanto as entidades literárias
mais representativas, como a Academia Brasileira de Letras e outras
se omitiam, a Editora Civilização Brasileira, comandada
pelo saudoso Ênio Silveira, tentava resistir. Os escritores
e outros artistas mais corajosos sabiam que era necessário
resistir às prisões, torturas e apreensões de
livro. Sabiam que era preciso fazer alguma coisa, não o que
fazer. Embora a palavra Sindicato tivesse para os milicos o peso de
um palavrão subversivo, valeria à pena tentar emplacar
o projeto de José Louzeiro. (Ele tinha vindo para Brasília,
e dividimos o meu apartamento, por um breve período, até
que a sua mulher, a primeira, funcionária do MEC, recebesse
o apê funcional Louzeiro queria lançar um jornal para
garantir a criação dos Sindicatos.
O projeto para a criação dos Sindicatos de Escritores
começou assim, efetivamente, com o lançamento em nível
nacional do "Jornal do Escritor". Com eu era Assessor de
Imprensa do Presidente do STF, Ministro Luiz Gallotti, Louzeiro me
dizia: "Você pode ajudar. E muito. Fale com o Gallotti.
O irmão dele, o Antônio, é o Presidente da Ligth"
Levei o Loureiro, para de viva voz fazer o pedido ao próprio
Presidente do STF
Segundo José Louzeiro, Rubem Fonseca não tinha coragem
de falar diretamente com a direção da Light, onde trabalhava,
sobre a idéia de obter a sustentação financeira
do "Jornal do Escritor",, em troca da promoção
de concursos literários para os funcionários da empresa.
Um telefonema do Presidente do STF para o seu irmão foi o bastante
para que a Light garantisse a periodicidade mensal, durante doze edições
do JE.